quinta-feira, 25 de outubro de 2012

REFORÇANDO AS TRINCHEIRAS


Robinson Cavalcanti

Deus escreveu sua Lei nas tábuas entregues a Moisés. Os textos históricos, poéticos e proféticos registram o Antigo Testamento. Os Evangelhos, as Cartas Apostólicas, os Atos dos Apóstolos e o Apocalipse, escritos por homens inspirados, formam o Novo Testamento. Esse conjunto compõe a Bíblia. A Revelação de Deus é escrita. Somos o povo do Livro. Ao longo da história da Igreja, dos Pais Apostólicos e Pais da Igreja aos Reformadores e Pós-Reformadores, pessoas iluminadas e comprometidas, explicaram e aplicaram a Revelação às necessidades e às conjunturas, em textos que, em conjunto, formam a tradição da Igreja, o consenso dos fiéis, legado que nos cabe preservar, atualizar e transmitir, com novos textos. Os textos bíblicos, os dos seus intérpretes ao longo dos séculos, a conjuntura dos momentos bíblicos, dos momentos dos escritores posteriores e do nosso, são dados objetivos; porém deles nos aproximamos com nossas subjetividades, condicionamentos e métodos, o que requer de cada um de nós honestidade e humildade.

Há, na vida da Igreja, lugar para a palavra falada, cantada, dramatizada, na proclamação das Boas Novas, no ensino da verdade, na conclamação à comunhão, na exortação ao serviço, e na denúncia profética aos pecados individuais, sociais e estruturais. Palavra falada que consola e exorta. Há também, na vida da Igreja, lugar para a palavra escrita, nas mesmas dimensões, com os mesmos compromissos e ministérios, sob o mesmo Espírito. A palavra falada e a palavra escrita devem estar em harmonia entre si e com as Escrituras Sagradas, que apontam para a Palavra Encarnada: Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor. Daí os riscos das “revelações” privadas e de textos fora do contexto, fontes de heresias e de fanatismos, descolados do Corpo. Os textos bíblicos não foram “psicografados”, nem seus intérpretes devem cumprir a sua tarefa sob transes “mediúnicos”, ou equivalentes. O senso comum e a intuição têm o seu lugar, assim como o uso instrumental dos métodos filosóficos e científicos, para uma melhor e mais acurada compreensão da Verdade. Se há uma dimensão “progressiva” da revelação, temos de ter cuidado com novos ensinos, que não foram feitos no passado de dois mil anos, por uma Igreja composta de pessoas com uma diversidade de dons e assistidas pelo Espírito Santo.

Escrever, pois, é dom, vocação, ministério e disciplina. Em cada época, a Igreja é edificada por esse ministério. O escritor é também leitor, de tudo o que se escreveu até agora e do que se está escrevendo no seu tempo. O escritor cristão não deve usar o seu texto para a promoção pessoal, mas para a honra e glória de Deus e a edificação do seu povo. Os textos escritos em outros países, com sua diversidade de história e contexto, são importantes para a manutenção da catolicidade, e o se evitar o paroquialismo e o sectarismo, mas não devem ser transplantados mecanicamente, pois sempre contêm elementos peculiares de cada cultura misturados com o núcleo do seu ensino edificante. Não podemos deixar de nos preocupar com a desproporção entre a quantidade de obras traduzidas em nossas livrarias cristãs e o reduzido número de autores nacionais (porém relevantes). Muitas vezes, eles encontram dificuldades para publicar os seus textos e a “falta de fé” dos seus próprios irmãos leitores na leitura de autores com sobrenome Silva...

Tenho estado nesse ministério há décadas, grato aos meus professores exigentes da língua portuguesa e aos meus críticos, quaisquer que sejam as suas motivações. Escrevi na imprensa secular e na imprensa religiosa, e pude, pela graça de Deus, publicar doze livros e opúsculos. Espero continuar a fazê-lo, enquanto o Senhor me der condições. Escrever sobre louvor, devoção ou doutrinas espirituais é mais leve, mas adentrar por campos do temas desafiantes do cotidiano, como a responsabilidade social, o compromisso político ou a sexualidade, significa incorrer em maiores riscos de reações. Quando se é descritivo é uma coisa, mas levantar bandeiras ou emitir opiniões pode resultar em reações positivas ou negativas, mais emocionais do que racionais. Quem não gosta, muitas vezes, no lugar de analisar a obra, ataca a pessoa do autor, tentando desqualificá-lo. Devo, na atualidade, escrever sobre os desafios que o secularismo externo e o liberalismo pós-moderno interno, com seu relativismo — inclusive ético —, e o que representam para a saúde e o futuro da Igreja. Já paguei um preço por isso. O cristianismo histórico é chamado a se posicionar, por exemplo, diante da onda pró-homossexualismo. Sobre esse tema, e relatando a violência institucional sofrida pelos anglicanos da Diocese do Recife, é que estou trazendo ao público um novo livro: Reforçando as Trincheiras (Editora Vida). Como escritores cristãos, é nosso dever participar, com nossa vocação e nossos dons, como soldados de Cristo, das batalhas espirituais e das guerras históricas, pois “viver é tomar partido”.


• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política – teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo – desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br


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