quarta-feira, 31 de outubro de 2012

31 DE OUTUBRO DE 2012 - DIA DA REFORMA PROTESTANTE


31 de Outubro de 1517_ Dia da Reforma Protestante

(Dia em que Martinho Lutero afixou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittemberg).

Gottfried Brakemeier (Pastor Luterano)

Estimadas Senhoras e Senhores, irmãos e irmãs!

Salvo raras exceções, o "Dia da Reforma" não goza do privilégio de um feriado em nosso País. Afinal, ele serve para quê? Para homenagear os protestantes? Para trazer à memória as dolorosas divisões da Igreja, ocorridas no século XVI? Existem sensibilidades, até mesmo embaraços com relação à comemoração do dia em que no remoto ano de 1517 Matim Lutero afixou suas afamadas 95 teses à porta da Igreja do Castelo em Wittenberg. É verdade que foi alto o preço a pagar pela Reforma, infelizmente. E no entanto, se a atenção se prender ao prejuízo tão-somente, ainda não se percebeu a real importância do movimento desencadeado por Lutero e os demais reformadores. Depois daquele 31 de outubro o mundo já não mais seria o mesmo como antes.

Apesar dos questionamentos, pois, a comunidade evangélica tem boas razões para não deixar passar em brancas nuvens esta data. Apregoa ser a Reforma evento memorável para toda cristandade e convida as Igrejas irmãs para a comemoração conjunta. Não nega a ambiguidade da mesma. O retrospecto histórico faz ver, a um só tempo, a fidelidade de Deus e o pecado humano, o ganho e a perda, avanços e fracassos. Justamente assim, porém, o dia possui relevância ecumênica. Lembra um marco decisivo na trajetória do povo de Deus, bem como uma vocação comum, altamente relevante no século XXI. É o que tentarei mostrar em poucas e breves reflexões.

1. Temo que, em boa medida, os aspectos incômodos, característicos do dia 31 de outubro, sejam decorrentes do próprio termo "Reforma". Desde que "Reforma" ultrapasse o simples conserto formal e persiga a meta de real renovação, costuma sofrer resistências. Foi o que aconteceu no século XVI. Lutero queria mais do que colocar remendo em roupa velha. Sintonizou, desse modo, com um profundo anseio popular da época, insistindo em substancial reforma de Igreja e sociedade "da cabeça até aos pés". Reforma, isto era sinônimo de "conversão", de mudança e de correção de percurso. Tratava-se de projeto necessário, inadiável, urgente.
   
Ainda hoje ou novamente o é. Necessitamos de reforma nas Igrejas. Aliás, Igreja luterana sabe ser reforma jamais algo definitivo. É como a higiene do corpo. Deve ser permanente. Ademais, reforma se exige como resposta a novos desafios e como adequação a novas circunstâncias. Quem não muda em meio às transformações da história, torna-se obsoleto, disfuncional. Não posso aprofundar o assunto. De qualquer maneira, o dia da reforma lembra à cristandade um compromisso inalienável, hoje não menos atual como antigamente. Igreja que resiste à reforma, estagna e coloca em risco sua qualidade evangélica. Eis, porque o dia da Reforma é dia ecumênico.
   
Arrisco dar mais outro passo. Afirmo "reforma" como premente necessidade global. Não foram apenas os acontecimentos no dia 11 de setembro último que disso lembraram. Há outros fenômenos angustiantes, exigindo uma radical mudança de rumo. Sem incisivas reformas na economia, na política, na mentalidade da era dita pós-moderna está ameaçado o futuro da humanidade. Estamos em situação pior do que no século XVI. Pois as ameaças são incomparavelmente mais graves. "Dia da Reforma", isto significa "Dia da Penitência". Sem a disposição para rever atitudes, procedimentos e leis não haverá saída dos impasses. O dia 31 de outubro exige deste nosso mundo nada menos do que a radical reavaliação dos valores e das estruturas que regem o convívio das pessoas e que conduziram a uma situação de quase pânico geral. Clamamos por paz, clamamos por mudança. Como alcançar o objetivo?

2. Também neste tocante a comemoração da Reforma do século XVI oferece ajuda. Lutero, o que queria? Ora, quis no fundo apenas isto: que os direitos de Deus voltassem a ser respeitados. Ele se opôs à usurpação de autoridade divina em Igreja e sociedade de seu tempo.
  
Paradoxalmente, o ser humano se desumaniza quando cultua seus próprios interesses e despreza os interesses divinos. Colidem então as ambições subjetivas, corporativistas, nacionalistas, mergulhando a sociedade em perigosos conflitos. Diz a Bíblia ser o temor a Deus o início da sabedoria. Quando o ser humano abole a fé em Deus ou a substitui pela fé em ídolos, transforma-se naquela besta de que fala o capítulo 13 do livro de Apocalipse, simbolizando tirania e perversão.
  
É tradição profética insistir no direito divino como norma do humano. Sob esta perspectiva, a Reforma do século XVI tem tido nitidamente natureza profética. Temer a Deus, amá-lo e confiar nele acima de todas as coisas, isto é simplesmente vital para o ser humano. Sem o respeito ao primeiro mandamento, a sociedade se inviabiliza. Perde os parâmetros e afunda em idolatria e confusão. Nem tudo é relativo, permitido, conveniente. O mundo de hoje se ressente da falta de critérios básicos comuns, capazes de garantir a sociedade sustentável, de assegurar a paz e de superar a tão falada crise de ética e mesmo de sentido. O "Dia da Reforma" coloca em pauta não só a necessidade da penitência. Com a mesma insistência reintroduz o tema "Deus" na luta dos interesses humanos, sejam eles individuais, grupais, institucionais e mesmo culturais. A fé em Deus não é nenhum supérfluo na vida humana. Ninguém o enfatizou como Lutero.

3. Mas dizer somente isto não basta. Pois justamente em nome de Deus tem sido e continuam sendo cometidos bárbaros crimes. Guerra é sempre um horror. Mas chega a seu ápice, quando assume as características de guerra santa. A Reforma bem o sabia. Combateu, por isto, o abuso do nome de Deus com o mesmo vigor com que insistia nos direitos de Deus. Viu a necessidade da prestação de contas da imagem do Deus a que o seu humano devota seu culto. Pois poderá ser um ídolo demoníaco, devorando qualidade de vida e acobertando a violência e a injustiça. A Reforma do século XVI pretendia ser evangélica, orientada no Deus que não escraviza, antes liberta dos múltiplos cativeiros humanos. Para Lutero e seus amigos Reforma não significava uma nova lei. Pelo contrário, consistia na redescoberta do amor de Deus que acolhe o perdido, o desesperado, o culpado, que justifica por graça e por fé.
  
O Deus do evangelho é o Deus que não se vingou nos seus inimigos, quando tramaram atentado contra seu filho. À crucificação de Jesus Cristo, Deus responde não com demonstração de força, de raiva e de retaliação, e, sim com o seu perdão. Por isto mesmo a lei máxima deste Deus é a do amor, loucura aos olhos do mundo, e não obstante a máxima sabedoria. Justiça humana evidentemente não pode abrir mão da penalização do crime. Impunidade é chaga no corpo social. Não se confunda justiça com vingança. Esta é o que se proíbe. Vai tão somente acelerar a espiral da violência e, à dessemelhança da justiça, é incapaz do perdão. Permanece verdade que perdoar é mais sábio do que vingar-se, distribuir mais sábio do que acumular, integrar mais sábio do que excluir. O Deus da Bíblia é o Deus da sabedoria. Nem sempre a cristandade tem sido fiel a este Deus. Assim como o apóstolo Pedro, assim também ela por demais vezes traiu o seu Mestre. Precisa de penitência também ela. Entretanto, vive da certeza de que infidelidade human   a não seja capaz de invalidar o amor que Deus mesmo é e que demonstra à sua criatura.
  
São os direitos deste Deus com que a Reforma se sabe comprometida. Igreja evangélica e cristã está consciente da variedade de imagens do divino neste mundo. Não quer impor a sua "teovisão" às religiões não cristãs. Qualquer pressão ou violência nessa direção seria incompatível com o Deus de Abraão, Isaque e Jacó que é também o Pai de Jesus Cristo. E no entanto, Igreja cristã jamais poderá conformar-se com a idéia de um Deus inclemente, impiedoso, brutal. Tal Deus que não ama e cuja "lei" maior por isto mesmo não consiste no amor, dificilmente vai proporcionar salvação à espécie humana e a este mundo. Não é o Deus de Jesus Cristo. Costuma-se considerar a fé um assunto particular. Nada mais errado do que isto. Fé é assunto público da mais alta relevância. Precisamos conversar a respeito, portanto. Pois o Deus em que o ser humano crê, é literalmente assunto de vida e morte, de paz ou de guerra, de bem estar social ou de ruína.

4. A Reforma do século XVI desenvolveu dinâmica pelo decidido recurso à Bíblia, respectivamente ao evangelho. Resultam daí um compromisso e um convite.
  
O compromisso é o da gratidão a Deus. Nós sabemos que o desenrolar da Reforma se deu em meio a fortes conflitos, alguns mesmo sangrentos. Nem sempre as causas eram de ordem religiosa. Fatores políticos, econômicos, religiosos, "humanos" se misturaram. Ainda assim. A Reforma brindou a Igreja de Jesus Cristo e por extensão também a humanidade com precisosos dons. É extremamente rica a herança espiritual que nos legou. Incentivou o estudo da Bíblia e o levantamento de seus tesouros. Cravou um espinho na carne da cristandade, lembrando-lhe a tarefa da reforma como inerente ao próprio evangelho. Acarretou liberdades individuais e grupais. Não preciso ser exaustivo. Seríamos cegos, se não enxergássemos a mão de Deus, escrevendo reto em linhas tortas também neste caso. Na Reforma o Espírito Santo soprou mais forte do que a obstinação humana e sua resistência à auto-correção, motivo para um profundo "Graças a Deus". A Igreja toda foi beneficiada.
  
O convite é duplo. Dirije-se em primeiro lugar às Igrejas irmãs. A Reforma não criou Igreja nova. Igreja cristã tem sua origem em Jerusalém, não em Wittenberg, nem em Roma, nem em Londres ou qualquer outra parte do mundo. Somos uma Igreja só, vivendo de uma só fonte que é o evangelho. Por isto façamos nova reforma juntos. E veremos que, se tivermos a coragem para tanto, vamos chegar bem próximos uns dos outros. Não vamos nivelar as nossas diferenças. Isto não é possível nem exigido. Mas vamos viver como pessoas e instituições reconciliadas por Cristo, oferecendo à sociedade um modelo de paz evangélica. Exatamente por isto, o convite vai para além das Igrejas. É extensivo à sociedade brasileira, às culturas, aos povos, aos segmentos sociais, às insituições políticas. Claro, "reforma" nestes horizontes vai se processar em termos diferentes, peculiares. Mas insistimos em que deixe de ser palavra temida e passe a ser projeto prioritário com critérios orientados no bem da criação. Isto em todos os níveis. Refor   ma é o pressuposto da paz que almejamos.


"Dia da Reforma" – um dia supérfluo? Igreja evangélica sustenta que não, e pede explicação de quem afirma o contrário. É um dia comemorativo, sim. Há uma história a lembrar que, em toda a sua ambiguidade, possui aspectos instrutivos e não deixa de ser motivo de gratidão. Simultaneamente, porém, "Dia da Reforma" é um dia programático, lembrando uma urgência atual. Conclama à ação. Para tanto nos dirigimos a Deus. Queira conceder-nos o seu Espírito renovador, assim como já o fez no passado, que o faça hoje.

Mensagem proferida em 31 de dezembro de 2001 por ocasião da celebração conjunta IELB e IECLB, Comunidade Evangélica de Porto Alegre e Distrito Portoalegrense.

As 95 Teses de Lutero

1ª Tese - Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: "Arrependei-vos", certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento.
2ª Tese - E esta expressão não pode e não deve ser interpretada como referindo-se ao sacramento da penitência, isto é, à confissão e satisfação, a cargo do ofício dos sacerdotes.
3ª Tese - Todavia não quer que apenas se entenda o arrependimento interno; o arrependimento interno nem mesmo é arrependimento quando não produz toda sorte de modificações da carne.
4ª Tese - Assim sendo, o arrependimento e o pesar, isto é, a verdadeira penitência, perdura enquanto o homem se desagradar de si mesmo, a saber, até a entrada desta para a vida eterna.
5ª Tese - O papa não quer e não pode dispensar outras penas, além das que impôs ao seu alvitre ou em acordo com os cânones, que são estatutos papais.
6ª Tese - O papa não pode perdoar divida senão declarar e confirmar aquilo que já foi perdoado por Deus; ou então faz nos casos que lhe foram reservados. Nestes casos, se desprezados, a dívida deixaria de ser em absoluto anulada ou perdoada.
7ª Tese - Deus a ninguém perdoa a dívida sem que ao mesmo tempo o subordine, em sincera humildade, ao sacerdote, seu vigário.
8ª Tese - Canones poenitendiales, que não as ordenanças de prescrição da maneira em que se deve confessar e expiar, apenas as Impostas aos vivos, e, de acordo com as mesmas ordenanças, não dizem respeito aos moribundos.
9ª Tese - Eis porque o Espírito Santo nos faz bem mediante o papa, excluído este de todos os seus decretos ou direitos o artigo da morte e da necessidade suprema
10ª Tese - Procedem desajuizadamente e mal os sacerdotes que reservam e impõem aos moribundos poenitentias canonicas ou penitências para o purgatório a fim de ali serem cumpridas.
11ª Tese - Este joio, que é o de se transformar a penitência e satisfação, Previstas pelos cânones ou estatutos, em penitência ou penas do purgatório, foi semeado quando os bispos se achavam dormindo.
12ª Tese - Outrora canonicae poenae, ou sejam penitência e satisfação por pecadores cometidos eram impostos, não depois, mas antes da absolvição, com a finalidade de provar a sinceridade do arrependimento e do pesar.
13ª Tese - Os moribundos tudo satisfazem com a sua morte e estão mortos para o direito canônico, sendo, portanto, dispensados, com justiça, de sua imposição.
14ª Tese - Piedade ou amor Imperfeitos da parte daquele que se acha às portas da morte necessariamente resultam em grande temor; logo, quanto menor o amor, tanto maior o temor.
15ª Tese - Este temor e espanto em si tão só, sem falar de outras cousas, bastam para causar o tormento e o horror do purgatório, pois que se avizinham da angústia do desespero.
16ª Tese - Inferno, purgatório e céu parecem ser tão diferentes quanto o são um do outro o desespero completo, incompleto ou quase desespero e certeza.
17ª Tese - Parece que assim como no purgatório diminuem a angústia e o espanto das almas, nelas também deve crescer e aumentar o amor.
18ª Tese - Bem assim parece não ter sido provado, nem por boas ações e nem pela Escritura, que as almas no purgatório se encontram fora da possibilidade do mérito ou do crescimento no amor.
19ª Tese - Ainda parece não ter sido provado que todas as almas do purgatório tenham certeza de sua salvação e não receiem por ela, não obstante nós termos absoluta certeza disto.
20ª Tese - Por isso o papa não quer dizer e nem compreende com as palavras "perdão plenário de todas as penas" que todo o tormento é perdoado, mas as penas por ele impostas.
21ª Tese - Eis porque erram os apregoadores de indulgências ao afirmarem ser o homem perdoado de todas as penas e salvo mediante a indulgência do papa.
22ª Tese - Pensa com efeito, o papa nenhuma pena dispensa às almas no purgatório das que segundo os cânones da Igreja deviam ter expiado e pago na presente vida.
23ª Tese - Verdade é que se houver qualquer perdão plenário das penas, este apenas será dado aos mais perfeitos, que são muito poucos.
24ª Tese - Assim sendo, a maioria do povo é ludibriada com as pomposas promessas do indistinto perdão, impressionando-se o homem singelo com as penas pagas.
25ª Tese - Exatamente o mesmo poder geral, que o papa tem sobre o purgatório, qualquer bispo e cura d’almas o tem no seu bispado e na sua paróquia, quer de modo especial e quer para com os seus em particular.
26ª Tese - O papa faz muito bem em não conceder às almas o perdão em virtude do poder das chaves (ao qual não possui), mas pela ajuda ou em forma de intercessão.
27ª Tese - Pregam futilidades humanas quantos alegam que no momento em que a moeda soa ao cair na caixa a alma se vai do purgatório.
28ª Tese - Certo é que no momento em que a moeda soa na caixa vêm o lucro e o amor ao dinheiro cresce e aumenta; a ajuda, porém, ou a intercessão da Igreja tão só correspondem à vontade e ao agrado de Deus.
29ª Tese - E quem sabe, se todas as almas do purgatório querem ser libertadas, quando há quem diga o que sucedeu com Santo Severino e Pascoal.
30ª Tese - Ninguém tem certeza da suficiência do seu arrependimento e pesar verdadeiros; muito menos certeza pode ter de haver alcançado pleno perdão dos seus pecados.
31ª Tese - Tão raro como existe alguém que possui arrependimento e, pesar verdadeiros, tão raro também é aquele que verdadeiramente alcança indulgência, sendo bem poucos os que se encontram.
32ª Tese - Irão para o diabo juntamente com os seus mestres aqueles que julgam obter certeza de sua salvação mediante breves de indulgência.
33ª Tese - Há que acautelasse muito e ter cuidado daqueles que dizem: A indulgência do papa é a mais sublime e mais preciosa graça ou dadiva de Deus, pela qual o homem é reconciliado com Deus.
34ª Tese - Tanto assim que a graça da indulgência apenas se refere à pena satisfatória estipulada por homens.
35ª Tese - Ensinam de maneira ímpia quantos alegam que aqueles que querem livrar almas do purgatório ou adquirir breves de confissão não necessitam de arrependimento e pesar.
36ª Tese - Todo e qualquer cristão que se arrepende verdadeiramente dos seus pecados, sente pesar por ter pecado, tem pleno perdão da pena e da dívida, perdão esse que lhe pertence mesmo sem breve de indulgência.
37ª Tese - Todo e qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, é participante de todos os bens de Cristo e da Igreja, dádiva de Deus, mesmo sem breve de indulgência.
38ª Tese - Entretanto se não deve desprezar o perdão e a distribuição por parte do papa. Pois, conforme declarei, o seu perdão constitui uma declaração do perdão divino.
39ª Tese - É extremamente difícil, mesmo para os mais doutos teólogos, exaltar diante do povo ao mesmo tempo a grande riqueza da indulgência e ao contrário o verdadeiro arrependimento e pesar.
40ª Tese - O verdadeiro arrependimento e pesar buscam e amam o castigo: mas a profusão da indulgência livra das penas e faz com que se as aborreça, pelo menos quando há oportunidade para isso.
41ª Tese - É necessário pregar cautelosamente sobre a indulgência papal para que o homem singelo não julgue erroneamente ser a indulgência preferível às demais obras de caridade ou melhor do que elas.
42ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, não ser pensamento e opinião do papa que a aquisição de indulgência de alguma maneira possa ser comparada com qualquer obra de caridade.
43ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos proceder melhor quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados do que os que compram indulgências.
44ª Tese - Ê que pela obra de caridade cresce o amor ao próximo e o homem torna-se mais piedoso; pelas indulgências, porém, não se torna melhor senão mais seguro e livre da pena.
45ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que aquele que vê seu próximo padecer necessidade e a despeito disto gasta dinheiro com indulgências, não adquire indulgências do papa. mas provoca a ira de Deus.
46ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem fartura , fiquem com o necessário para a casa e de maneira nenhuma o esbanjem com indulgências.
47ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, ser a compra de indulgências livre e não ordenada
48ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro.
49ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos, serem muito boas as indulgências do papa enquanto o homem não confiar nelas; mas muito prejudiciais quando, em conseqüência delas, se perde o temor de Deus.
50ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa tivesse conhecimento da traficância dos apregoadores de indulgências, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.
51ª Tese - Deve-se ensinar aos cristãos que o papa, por dever seu, preferiria distribuir o seu dinheiro aos que em geral são despojados do dinheiro pelos apregoadores de indulgências, vendendo, se necessário fosse, a própria catedral de São Pedro.
52º Tese - Comete-se injustiça contra a Palavra de Deus quando, no mesmo sermão, se consagra tanto ou mais tempo à indulgência do que à pregação da Palavra do Senhor.
53ª Tese - São inimigos de Cristo e do papa quantos por causa da prédica de indulgências proíbem a Palavra de Deus nas demais igrejas.
54ª Tese - Esperar ser salvo mediante breves de indulgência é vaidade e mentira, mesmo se o comissário de indulgências, mesmo se o próprio papa oferecesse sua alma como garantia.
55ª Tese - A intenção do papa não pode ser outra do que celebrar a indulgência, que é a causa menor, com um sino, uma pompa e uma cerimônia, enquanto o Evangelho, que é o essencial, importa ser anunciado mediante cem sinos, centenas de pompas e solenidades.
56ª Tese - Os tesouros da Igreja, dos quais o papa tira e distribui as indulgências, não são bastante mencionados e nem suficientemente conhecido na Igreja de Cristo.
57ª Tese - Que não são bens temporais, é evidente, porquanto muitos pregadores a estes não distribuem com facilidade, antes os ajuntam.
58ª Tese - Tão pouco são os merecimentos de Cristo e dos santos, porquanto estes sempre são eficientes e, independentemente do papa, operam salvação do homem interior e a cruz, a morte e o inferno para o homem exterior.
59ª Tese - São Lourenço aos pobres chamava tesouros da Igreja, mas no sentido em que a palavra era usada na sua época.
60ª Tese - Afirmamos com boa razão, sem temeridade ou leviandade, que estes tesouros são as chaves da Igreja, a ela dado pelo merecimento de Cristo.
61ª Tese - Evidente é que para o perdão de penas e para a absolvição em determinados casos o poder do papa por si só basta.
62ª Tese - O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.
63ª Tese - Este tesouro, porém, é muito desprezado e odiado, porquanto faz com que os primeiros sejam os últimos.
64ª Tese - Enquanto isso o tesouro das indulgências é sabiamente o mais apreciado, porquanto faz com que os últimos sejam os primeiros.
65ª Tese - Por essa razão os tesouros evangélicos outrora foram as redes com que se apanhavam os ricos e abastados.
66ª Tese - Os tesouros das indulgências, porém, são as redes com que hoje se apanham as riquezas dos homens.
67ª Tese - As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como a mais sublime graça decerto assim são consideradas porque lhes trazem grandes proventos.
68ª Tese - Nem por isso semelhante indigência não deixa de ser a mais Intima graça comparada com a graça de Deus e a piedade da cruz.
69ª Tese - Os bispos e os sacerdotes são obrigados a receber os comissários das indulgências apostólicas com toda a reverência.
70ª Tese - Entretanto têm muito maior dever de conservar abertos olhos e ouvidos, para que estes comissários, em vez de cumprirem as ordens recebidas do papa, não preguem os seus próprios sonhos.
71ª Tese - Aquele, porém, que se insurgir contra as palavras insolentes e arrogantes dos apregoadores de indulgências, seja abençoado.
72ª Tese - Quem levanta a sua voz contra a verdade das indulgências papais é excomungado e maldito.
73ª Tese - Da mesma maneira em que o papa usa de justiça ao fulminar com a excomunhão aos que em prejuízo do comércio de indulgências procedem astuciosamente.
74ª Tese - Muito mais deseja atingir com o desfavor e a excomunhão àqueles que, sob o pretexto de indulgência, prejudiquem a santa caridade e a verdade pela sua maneira de agir.
75ª Tese - Considerar as indulgências do papa tão poderosas, a ponto de poderem absolver alguém dos pecados, mesmo que (cousa impossível) tivesse desonrado a mãe de Deus, significa ser demente.
76ª Tese - Bem ao contrario, afirmamos que a indulgência do papa nem mesmo o menor pecado venial pode anular o que diz respeito à culpa que constitui.
77ª Tese - Dizer que mesmo São Pedro, se agora fosse papa, não poderia dispensar maior indulgência, significa blasfemar S. Pedro e o papa.
78ª Tese - Em contrario dizemos que o atual papa, e todos os que o sucederam, é detentor de muito maior indulgência, isto é, o Evangelho. as virtudes o dom de curar, etc., de acordo com o que diz 1Coríntios 12.
79ª Tese - Afirmar ter a cruz de indulgências adornada com as armas do papa e colocada na igreja tanto valor como a própria cruz de Cristo, é blasfêmia.
80ª Tese - Os bispos, padres e teólogos que consentem em semelhante linguagem diante do povo, terão de prestar contas deste procedimento.
81ª Tese - Semelhante pregação, a enaltecer atrevida e insolentemente a Indulgência, faz com que mesmo a homens doutos é difícil proteger a devida reverência ao papa contra a maledicência e as fortes objeções dos leigos.
82ª Tese - Eis um exemplo: Por que o papa não tira duma só vez todas as almas do purgatório, movido por santíssima' caridade e em face da mais premente necessidade das almas, que seria justíssirno motivo para tanto, quando em troca de vil dinheiro para a construção da catedral de S. Pedro, livra um sem número de almas, logo por motivo bastante Insignificante?
83ª Tese - Outrossim: Por que continuam as exéquias e missas de ano em sufrágio das almas dos defuntos e não se devolve o dinheiro recebido para o mesmo fim ou não se permite os doadores busquem de novo os benefícios ou pretendas oferecidos em favor dos mortos, visto' ser Injusto continuar a rezar pelos já resgatados?
84ª Tese - Ainda: Que nova piedade de Deus e dó papa é esta, que permite a um ímpio e inimigo resgatar uma alma piedosa e agradável a Deus por amor ao dinheiro e não resgatar esta mesma alma piedosa e querida de sua grande necessidade por livre amor e sem paga?
85ª Tese - Ainda: Por que os cânones de penitência, que, de fato, faz muito caducaram e morreram pelo desuso, tornam a ser resgatados mediante dinheiro em forma de indulgência como se continuassem bem vivos e em vigor?
86ª Tese - Ainda: Por que o papa, cuja fortuna hoje é mais principesca do que a de qualquer Credo, não prefere edificar a catedral de S. Pedro de seu próprio bolso em vez de o fazer com o dinheiro de fiéis pobres?
87ª Tese - Ainda: Quê ou que parte concede o papa do dinheiro proveniente de indulgências aos que pela penitência completa assiste o direito à indulgência plenária?
88ª Tese - Afinal: Que maior bem poderia receber a Igreja, se o papa, como Já o faz, cem vezes ao dia, concedesse a cada fiel semelhante dispensa e participação da indulgência a título gratuito.
89ª Tese - Visto o papa visar mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que revoga os breves de indulgência outrora por ele concedidos, aos quais atribuía as mesmas virtudes?
90ª Tese - Refutar estes argumentos sagazes dos leigos pelo uso da força e não mediante argumentos da lógica, significa entregar a Igreja e o papa a zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.
91ª Tese - Se a Indulgência fosse apregoada segundo o espírito e sentido do papa, aqueles receios seriam facilmente desfeitos, nem mesmo teriam surgido.
92ª Tese - Fora, pois, com todos estes profetas que dizem ao povo de Cristo: Paz! Paz! e não há Paz.
93ª Tese - Abençoados sejam, porém, todos os profetas que dizem à grei de Cristo: Cruz! Cruz! e não há cruz.
94ª Tese - Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir sua Cabeça Cristo através do padecimento, morte e inferno.
95ª Tese - E assim esperem mais entrar no Reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados diante de consolações infundadas


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